quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Arte e filosofia - Atividade 6

 Para Schopenhauer, uma das experiências fundamentais da existência humana é proporcionada pela arte e sua capacidade de nos fazer perder no objeto. Cite uma obra ou a visão de algo belo na natureza que te conduz a essa experiência. Coloque um link nos comentários com alguma remissão a essa obra ou a esse objeto e justifique sua escolha.

16 comentários:

  1. Alberto Caeiro
    II - O meu olhar é nítido como um girassol.
    II



    O meu olhar é nítido como um girassol.

    Tenho o costume de andar pelas estradas

    Olhando para a direita e para a esquerda,

    E de vez em quando olhando para trás...

    E o que vejo a cada momento

    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

    E eu sei dar por isso muito bem...

    Sei ter o pasmo essencial

    Que tem uma criança se, ao nascer,

    Reparasse que nascera deveras...

    Sinto-me nascido a cada momento

    Para a eterna novidade do Mundo...



    Creio no Mundo como num malmequer,

    Porque o vejo. Mas não penso nele

    Porque pensar é não compreender...

    O Mundo não se fez para pensarmos nele

    (Pensar é estar doente dos olhos)

    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…



    Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

    Mas porque a amo, e amo-a por isso,

    Porque quem ama nunca sabe o que ama

    Nem sabe porque ama, nem o que é amar...



    Amar é a eterna inocência,

    E a única inocência é não pensar...

    Segue o poema do Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa, em que duras críticas a metafísica são tecidas, criticas estas que são muito parecidas com as de Porchat.

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  2. Atividade 6 - Cesar Silva
    Para mim, nenhuma outra obra de arte é mais inspiradora que o longa metragem 2001, uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, lançado em 1968 a partir de um roteiro de Arthur C. Clarke livremente inspirado no conto "Encontro com medusa", do próprio autor. Trata-se de uma obra que segue o protocolo da pergunta, ou seja, não tem uma conclusão explicativa, mas deixa as conclusões abertas para o expectador. A história mostra a evolução do intelecto humano a partir de um objeto misterioso, o monolito, similar a uma porta, que surge nos momentos dos saltos evolutivos da consciência. Muito se especula sobre o monolito ser uma entidade alienígena, contudo muitas pistas - inseridas por Kubrick - levam a crer que se trata de uma leitura nietzschiana do surgimento do super-homem. A presença importante de um trecho de "Assim falou Zaratustra", de Richard Wagner, na trilha sonora faz uma ponte óbvia com essa interpretação. O monolito guarda relação com o portal do instante entre as eternidades do passado e do futuro, que o protagonista cruza num dado momento da narrativa. Superando o tempo, ele também supera o homem, e se torna o super-homem. Apesar de ser uma ficção científica em cujo processo evolutivo está mediado pela tecnologia, a transformação radical da consciência é apresentada como algo além da compreensão, sem explicação racional e sem percepção sensível, algo obviamente localizado no campo metafísico. O processo guarda alguns pontos de contato com os conceitos de Schopenhauer, na medida que a vida é carregada de sofrimento e o crescimento espiritual - aqui entendido como intelectual e ético - é fruto da superação da representação e da vontade do corpo humano.

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  3. As obras de arte que eu mais gosto são as de arte surrealista. Principalmente, por causarem um espanto em nós. Ao efetuarem uma distorção das formas, acabam pertubando o nosso olhar sobre as coisas que estamos acostumados. Deixo algumas obras do René Magritte que incitam nossa reflexão e pertubam nosso olhar. Inclusive, a obra do cachimbo que é tão falada na filosofia. https://www.culturagenial.com/obras-magritte/

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  4. Tomando como exemplo os pontos levantados pelo próprio Schopenhauer no terceiro livro, onde o mesmo destaca a música como a arte que detém um lugar especial frente às outras, acredito que seja válido destacar uma peça deste eixo. Sendo assim, trouxe uma obra musical de Johann Sebastian Bach (Suíte para Violoncelo No.1 - em Sol Maior), uma peça musical de aproximadamente 18 minutos e que contém 6 composições do mesmo. Essa peça artística com certeza me traz um sentimento de introspecção e também de reflexão, sendo capaz de despertar o sentimento citado por Schopenhauer, que permite com que nos percamos no objeto e que, também, nos traz a sensação de satisfação através da contemplação artística.

    Link: https://www.youtube.com/watch?v=2CM_J3r-Nt4&ab_channel=M%C3%BAsicaCl%C3%A1sica

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  5. A música em suas variadas formas de expressão exerce sobre mim um fascínio especial, uma espécie de força gravitacional capaz não apenas de me atrair, mas também de me fazer "perder" nela.
    Nesse sentido, a música Como Nossos Pais, composta e gravada por Belchior no ano de 1976, figura como uma dessas experiências ímpares que vivenciei na vida. Deixo aqui a letra para apreciação e reflexão a quem possa interessar.


    música: Como nossos pais

    autor: Belchior

    Não quero lhe falar
    Meu grande amor
    Das coisas que aprendi
    Nos discos
    Quero lhe contar como eu vivi
    E tudo o que aconteceu comigo

    Viver é melhor que sonhar
    Eu sei que o amor
    É uma coisa boa
    Mas também sei
    Que qualquer canto
    É menor do que a vida
    De qualquer pessoa

    Por isso cuidado, meu bem
    Há perigo na esquina
    Eles venceram e o sinal
    Está fechado pra nós
    Que somos jovens

    Para abraçar seu irmão
    E beijar sua menina na rua
    É que se fez o seu braço
    O seu lábio e a sua voz

    Você me pergunta
    Pela minha paixão
    Digo que estou encantada
    Como uma nova invenção
    Eu vou ficar nesta cidade
    Não vou voltar pro sertão
    Pois vejo vir vindo no vento
    Cheiro de nova estação
    Eu sinto tudo na ferida viva
    Do meu coração

    Já faz tempo
    Eu vi você na rua
    Cabelo ao vento
    Gente jovem reunida
    Na parede da memória
    Essa lembrança
    É o quadro que dói mais

    Minha dor é perceber
    Que apesar de termos
    Feito tudo o que fizemos
    Ainda somos os mesmos
    E vivemos
    Ainda somos os mesmos
    E vivemos
    Como os nossos pais

    Nossos ídolos
    Ainda são os mesmos
    E as aparências
    Não enganam não
    Você diz que depois deles
    Não apareceu mais ninguém

    Você pode até dizer
    Que eu tô por fora
    Ou então
    Que eu tô inventando

    Mas é você
    Que ama o passado
    E que não vê
    É você
    Que ama o passado
    E que não vê
    Que o novo sempre vem

    Hoje eu sei
    Que quem me deu a ideia
    De uma nova consciência
    E juventude
    Tá em casa
    Guardado por Deus
    Contando o vil metal

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  6. Sinto que me relaciono diferente com diferentes manifestações artísticas. Creio que não me torno sujeito puro do conhecimento ao contemplar obras musicais, pois faço interpretações muito pessoais de músicas e dando a elas significados a partir de minhas próprias memórias e sentimentos, logo, uma contemplação muito influenciada pela minha própria vontade.

    Contudo, em obras visuais consigo perceber mais claramente o explicado por Schopenhauer, pois obras cinematográficas geralmente me levam a um estado de contemplação que me tiram de minha própria realidade e me sinto entregue a uma busca por interpretar as intenções dos autores. Recentemente, o filme "Estou Pensando em Acabar com Tudo" me levou a esse estado, pois a história do filme não é contada de forma linear e temporal, ele possui uma estrutura complexa que foge à lógica. Para entendê-lo, o espectador precisa tentar enxergar cada detalhe da história a partir da ótica do personagem e não a sua própria. Isso pra mim pareceu ser uma experiência parecida com a descrita por Schopenhauer, uma contemplação livre de minha própria vontade.

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  7. Quero compartilhar com vocês um álbum musical que gosto muito porque reúne duas tradições distantes de uma forma bastante harmônica. Trata-se do "Lambarena - Bach To Africa", de 1995, feito por um músico francês (https://www.youtube.com/watch?v=EyNTCyPFFJA). Ele misturou a música de Bach com músicas tradicionais do Gabão e alcançou um resultado genial. Ouvindo este álbum, facilmente esqueço minha própria existência para apenas sentir o prazer das sensações que o arranjo proporciona.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Uma categoria de peça artística que em muitos exemplares me intriga é a cinematografia, não experimentada por Schopenhauer, mas que embala o sujeito dentro de si da mesma forma que outras expressões do belo. Nesse sentido, uma obra que me tomou atenção e me imergiu diversas vezes dentro de seu universo, sua estética, além de suas reflexões, foi a série Dark. Série catalogada na plataforma Netflix, que inclusive traz um teor radicalmente schopehaueriano de que o sujeito não é livre enquanto se submete às suas vontades, e no contexto da obra, está condenado a repetir todas as suas ações enquanto lhe for dada novamente a mesma chance de escolher. "sic mundus creatus est"
    https://www.netflix.com/br/title/80100172

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  10. Partilho estas imagens do deserto do ataca, um lugar que pra mim representa o espanto, o belo e o sublime. É um lugar de muitas cores, contrastes e perigos. Como na obra "na natureza selvagem" ao contemplar essa paisagem sinto vontade de "perder-me" nela, me embrenhar.
    http://www.gialloreto.com.br/detalhe-destino/deserto-do-atacama

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  11. As artes visuais constantemente me provocam essa sensação de "perda no objeto". Uma dessas obras é a instalação de Damien Hirst chamada “A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo”, de 1991 (http://www.damienhirst.com/the-physical-impossibility-of). É uma forma talvez até violenta de contemplação da natureza. É uma composição diferente, muito mais crua, mas ainda próxima das naturezas mortas dos pintores da Era de Ouro holandesa, os quais Schopenhauer elogiou e possuía particular afeição. O interessante da obra de Hirst para mim é que mesmo simples, ela tem uma relação de hostilidade muito grande comigo enquanto espectador, reduzindo minha existência a algo muito pequeno, irrelevante, suspendendo a vaidade e o desejo ao me colocar cara a cara com a insignificância e os limites da minha compreensão. Esse desconforto me remete à distinção que Schopenhauer faz da experiência do belo e do sublime. Identifico uma experiência estética mais próxima do sublime que do belo, já que se atinge algum conhecimento com essa obra por uma “consciente e violenta separação do objeto com a vontade”, quando contemplo uma figura que é ameaçadora não somente pela forma física, mas pelo que ela representa no contexto da obra. Me perco na beleza física da obra e na suspensão que a ideia dela me provoca.

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  12. Com certeza a forma de arte que eu mais aprecio é a música. Ouvir música para mim, é algo quase que ritualístico, pois, gosto de me sentar em frente ao meu sistema de som e me dedicar inteiramente ao álbum que está tocando e é desse modo que posso me perder no objeto o que é sempre uma experiência muito prazerosa.
    Compartilho a versão de estúdio da música Comfortably Numb do Pink Floyd, que é a faixa que encerra o lado A do segundo disco do The Wall de 1979. A atmosfera da música por si só já é bastante capaz de proporcionar uma experiência como a descrita por Schopenhauer, mas eu recomendo o solo final da música que inicia em 4:30. Este solo de David Gilmour foi eleito o segundo melhor solo de guitarra de todos os tempos pela revista Classic Rock e está muito bem amparado pelo trabalho de Waters, Mason e Wright.

    Pink Floyd - Comfortably Numb: https://youtu.be/x-xTttimcNk

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  13. A forma de arte que tenho para compartilhar é a música, a qual tem grande importância em minha vida pois sempre me aproximou de novas formas de se expressas e entender o mundo, por meio dos diferentes gêneros musicais. Eu vejo a musica como uma forma artística bem diversificada, não só devido o fato de poder ser reproduzida de diferentes formas e estilos mas também porque é capaz de transmitir uma mensagem. A junção dos instrumentos mais diversos, que podem ser tocados de infinitas formas diferentes, junto com as letras, criam algo singular e único.
    Trago o álbum Hawaii Part II da banda Miracle Musical. Esse álbum foi a primeira vez em que eu realmente me deixei levar pela obra que escutava, ouvindo da primeira a última música. Foi o primeiro álbum que fui capaz de perceber a composição como um todo, havendo uma sintonia e conexão entre todas as músicas. Se trata de uma experiência única, pois é como se observa-se uma história, com começo meio e fim. Há também o fato de como as músicas deste álbum possuem uma característica muito interpretativa, quase como um sonho, onde os significados por trás das letras e dos instrumentos não fossem fixos, mas sim constantemente interpretados de formas diferentes. Destaco a última faixa, Dream In Sea Major, onde todo o álbum se conclui, com partes das outras músicas aparecendo nesta última faixa, que fala com o ouvinte como se o dissesse um adeus, após toda a experiência que lhe foi apresentado.

    https://www.youtube.com/watch?v=NbtsZJXnzFY&ab_channel=ComprehensionAmalgamation

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  14. Para mim, falar de arte é também propriamente falar de imersão. Esta imersão é o que nos permite estar em contato somente com a obra: é a própria capacidade de nos fazer perder no objeto, como Schopenhauer alega.
    Uma das grandes obras capazes de me trazer essa sensação é a obra literária "O Espelho", de Machado de Assis. O conto pode ser acessado através deste link: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000240.pdf
    No conto, o espelho aparece como um elemento chave, um elemento poético que desencadeia uma discussão interessante mesclando arte, filosofia e a metafísica irônica Machadiana.
    Nathalie Uchino Orioli

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  15. A proposta dessa atividade em si, não é difícil. Muito pelo contrário, é demasiadamente instigante e inspiradora. Porém, escolher apenas uma obra para citar, é um grande desafio, pois há muitas que me afetam de uma maneira profunda, fazendo com que eu me esqueça de mim.

    Menciono aqui o álbum “Inside the Great Pyramid”, de Paul Horn: https://m.youtube.com/watch?v=Y7LQxDJ-u98
    Minha escolha se justifica pelo fato de que ao escutar essas músicas, sinto como se por alguns instantes eu me desligasse por completo dessa realidade habitual que me cerca e fosse transportada para um universo distante e diferente deste no qual eu vivo. No fundo, é uma experiência inexplicável através da lógica e da razão e, justamente por isso, difícil de ter descrita em palavras. É algo imediato e intenso, que sempre se repete e que sempre é positivo.

    No ano passado eu escrevi um texto sobre esse álbum, e disponibilizo aqui aos interessados, o link da minha matéria: https://www.audiograma.com.br/2019/10/redescobrindo-sons-paul-horn-e-o-seu-album-gravado-dentro-das-piramides-do-egito/

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